O Papel da Indústria Química na Bioeconomia

O Papel da Indústria Química na Bioeconomia
the light bulb sits on the ground Plants grow on stacked coins. Renewable energy production is essential for the future. Green businesses using renewable energy can limit climate change and global warming.

Por Matheus Gadotti Junkes, Presidente do Comitê de Sustentabilidade do Grupo Flexível

A bioinovação é uma importante estratégia para impulsionar o desenvolvimento sustentável. A bioeconomia oferece alternativas viáveis para a produção sustentável e a descarbonização das economias, por meio da utilização de recursos biológicos renováveis em substituição à matéria-prima e combustíveis de origem fóssil.

A indústria química brasileira é essencial para o desenvolvimento da bioeconomia, por ser capaz de agregar valor aos recursos biológicos, desenvolver e implementar tecnologias que mitigam os impactos ambientais e promovem a economia circular, por meio da conversão da biomassa em produtos como bioplásticos. O setor também é capaz de otimizar recursos oriundos de resíduos, substituindo a matéria-prima de origem fóssil por um produto de base biológica. 

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma das pioneiras a tratar o tema, em 2009, por meio do relatório The Bioeconomy to 2030, que reconhecia a importância de combinar recursos naturais com tecnologias avançadas para criar produtos e serviços em diversos setores econômicos, a bioeconomia movimenta, atualmente, no mercado mundial cerca de 2 trilhões de euros e gera cerca de 22 milhões de empregos. 

E, as atividades do setor estão no centro de pelo menos metade dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, como Fome Zero e Agricultura Sustentável, Energia Limpa e Acessível, Cidades e Comunidades Sustentáveis, Consumo e Produção Responsáveis. 

A bioeconomia no Brasil

O Brasil é um dos países que mais podem se beneficiar com a bioeconomia, devido suas vantagens competitivas. O país tem seis biomas que proporcionam alta diversidade biológica e o fazem ter a maior diversidade de fauna e flora mundial; matriz energética majoritariamente renovável, com energia hídrica, eólica, solar e bioenergia; produção agrícola que conta com sol e água durante todo o ano; e disponibilidade de biomassa agrícola, florestal e residual.

Se considerarmos que uma das características da bioeconomia é a substituição de fontes fósseis por fontes renováveis de energia, o Brasil é um dos pioneiros nesse processo e começou a desenvolver sua bioeconomia em 1975 com o lançamento do Programa Nacional do Álcool (Proálcool). 

Apesar do Programa não considerar uma das preocupações atuais da bioeconomia – a conservação ambiental – o Proálcool foi importante para o desenvolvimento dos biocombustíveis no país, que geram menos emissões de CO2, e seguiram de forma evolutiva até colocar o Brasil como o país com maior potencial para a produção do combustível sustentável para aviação (SAF) na América Latina, de acordo com o estudo Sustainable Descarbonization of Aviation in Latin America, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). 

A bioeconomia pode gerar para o Brasil um retorno de US$ 593 bilhões por ano até 2050, a partir de um investimento único de US$ 257 bilhões, segundo o estudo Identificação das Oportunidades e o Potencial do Impacto da Bioeconomia para a Descarbonização do Brasil: Novos Cenários, da Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI).

Ainda, de acordo com o estudo, seria possível reduzir o CO2 acumulado no período de 2020 a 2050 em cerca de 28 Gigatonelada, o que comprova a capacidade que as tecnologias relacionadas à bioeconomia têm para alavancar a economia e contribuir com a descarbonização nacional. A capacidade de descarbonização é ainda mais importante considerando que em 2023, o Brasil foi o sexto maior emissor de CO2 atrás apenas de China, Estados Unidos, Índia, toda a União Europeia e Rússia, segundo o Banco de Dados de Emissões para Pesquisa Atmosférica Global (EDGAR).

Importância do ambiente regulatório

Entre as propostas que o estudo da ABBI contempla estão cadeias para a geração de energia e conversão da biomassa em produtos de alto valor agregado, incluindo bioquímicos e biomateriais, que necessitam da participação do setor químico para se tornarem realidade. 

Muitas indústrias químicas nacionais já promovem a transformação da biomassa em produtos de maior valor agregado, como espumas rígidas, flexíveis, revestimentos, elastômeros, adesivos, selantes, que abastecem e colaboram para a sustentabilidade de setores produtivos como moda e vestuário, calçadista, construção civil, artigos de cama, cadeia do frio, entre outros. 

Entretanto, desafios importantes permanecem para as empresas que viabilizam a bioeconomia. Um dos principais é o custo de produção, que ainda é maior para produtos de origem biológica em comparação aos derivados do petróleo. O SAF por exemplo, tem um custo de produção de duas a três vezes maior do que o combustível convencional de aviação. Além dos investimentos necessários em pesquisa e inovação para desenvolver processos e garantir que um produto de base renovável obtenha o mesmo desempenho de um produto que usa como matéria-prima o petróleo, as empresas precisam investir em novos equipamentos e de valor mais elevado, usados tanto para o desenvolvimento como para a produção dos bioprodutos. 

A oferta de mão de obra especializada em processos químicos com produtos renováveis está em crescimento, mas é mais difícil encontrar esse perfil de profissional. O que reforça a importância de as empresas criarem laboratórios dedicados e proporcionar um ambiente em que esses profissionais possam compartilhar conhecimento e experiência com seus colegas. Além disso, a bioeconomia exige uma cadeia produtiva integrada e eficiente, mas questões como transporte de biomassa, infraestrutura adequada e necessidade de desenvolver e homologar diversas biomassas, subprodutos de diferentes tipos de cultivos como soja, arroz, milho, mamona e canola, para mitigar riscos de falta de matéria-prima, dificultam a expansão e encarecem o processo produtivo e logístico. 

Não há dúvidas de que as pessoas estão interessadas em produtos que ofereçam maior conexão com a natureza e estejam de acordo com valores éticos. E é necessário que haja uma legislação mais clara sobre quais as quantidades mínimas de matéria-prima de base renovável os produtos precisam alcançar para poderem ser considerados sustentáveis. Afinal, usar 5%, 25% ou mais de 50% de base renovável para obter as mesmas características de um produto a base de petróleo exigem níveis de investimento e geram benefícios diferentes à sociedade e ao meio ambiente. 

É preciso reconhecer que além das ações da iniciativa privada, o governo tem promovido o desenvolvimento mais acentuado da bioeconomia. Há pouco mais de um ano foi lançada a Estratégia Nacional de Bioeconomia, por meio do Decreto nº 12.044, de 5 de junho de 2024, com o objetivo de promover um modelo econômico sustentável, justo e inclusivo, baseado no uso eficiente e regenerativo de recursos naturais e no incentivo à descarbonização dos processos produtivos.

O Decreto também determina que a Estratégia será implementada por meio do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, desenvolvido pela Comissão Nacional de Bioeconomia (CNBio), instituída por ato conjunto do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e do Ministério da Fazenda. Um ponto positivo é que a CNBio, também, conta com representantes da indústria e da academia e uma versão preliminar do Plano já é avaliada pela Comissão. 

O reconhecimento da necessidade de o país ter um Plano para aproveitar atributos positivos como a matriz energética limpa, biodiversidade e setor industrial desenvolvido, incluindo a química, é positivo para a economia e o meio ambiente. Mas, para desenvolver uma cadeia produtiva mais sustentável, o ambiente regulatório precisa considerar ações para acelerar a aprovação de insumos para pesquisa, o processo de homologação para produtos sustentáveis e incentivar os investimentos em pesquisa e inovação nas empresas, centros de pesquisa e academia. O diálogo e a parceria entre a iniciativa privada, governo e representantes da sociedade devem ser permanentes e continuar mesmo após a aprovação do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia.